Viver a vida!

Eu só gostava de novela quando a TV chegou a Araçatuba e eu ainda não sabia o que era bom. Senso crítico nunca me faltou – até sobra – e é claro que logo eu comecei a questionar as bobagens que as novelas traziam embutidas, presumidas e escancaradamente esfregadas em nosso nariz. E além disso não tenho saco nem tempo para assistir dramalhão com sabor de “dejà vu” que se arrasta por meses para tudo ficar certo no minuto final do segundo tempo de prorrogação.

Mas acabei descobrindo que ver novela é útil, ou pelo menos pode ser em minha profissão. Sou professora de inglês e não uso traduções nem explicações de mão beijada, os alunos vão aos poucos deduzindo através de minhas perguntas e exemplos. Quando chega no ítem “relações familiares” sempre esbarramos no conflito cultural ou de gerações, sei lá. Uso como exemplos os personagens dos seriados da TV a cabo. Meus alunos em sua maioria também possuem TV a cabo, mas fazem aquela cara de “Ahn?” que me deixa frustrada.

Então decidi que ia assistir novela. Pelo menos uma. Todo dia, religiosamente. Assim teria profusões de exemplos e de situações para usar em minhas aulas. Sacrifício profissional, se Maomé não vê TV a cabo, a montanha vai ver novela então.

Meu marido fez cara de dúvida, meus filhos deram risada. Mas comecei a fazer a lição de casa, aproveitei que a novela estava começando e me sentei todos os dias depois do Jornal da Globo para acompanhar a trama da novela das 8, aliás das 9, esse horário é para enganar trouxa.

Tédio total enquanto se delineavam os personagens, de nada estava adiantando porque além de não acontecer nada não consegui guardar o nome de nenhum deles, nem de decorar suas relações complicadas demais para minha cabeça cansada depois de um dia todo no lufa-lufa. Mas enfim, não costumo abandonar nenhuma missão pela metade, por mais indigesta que ela seja.

E vai que depois de mais alguns dias de santa paciência a coisa desandou e começou a acontecer de tudo! Ótimo, mas agora eu estou mais interessada no desenrolar da trama e em seus personagens que nos exemplos para a aula.

Os personagens

Percebi que os personagens não são janeteclarianos, aquela eterna disputa do bem contra o mal. Se há essa disputa, ela se desenrola dentro de cada um deles, em sua grande maioria abrigando um lado “mocinho” e um lado “bandido”, como aliás todos os seres humanos que conheço. Bem mais próximos da realidade eles vivem dramas comuns a todos nós, ou pelo menos uma boa parte de nós. Parece-me que existe mais uma preocupação em mostrar uma ficção mais próxima da realidade que de mascarar a realidade para ficar mais boninitinha e usá-la em forma de ficção.

O vilão da história

O que me encantou nessa primeira parte da novela foi a “vilã” do pedaço, que não é nenhum personagem, é uma velha companheira que todos conhecemos bem: a culpa. Pelo menos nessa primeira parte é ela quem determina o andar da carruagem e faz com que os personagens sintam-se mais fortes ou mais frágeis. Ela fez a durona Helena desabar, e mais ainda deve rolar por conta desse sentimento que vai envenenando aos poucos a vida das pessoas, distorcendo sua visão das coisas e permitindo que elas ajam de uma forma irreconhecível de acordo com sua personalidade.

De quem é a culpa?

Mas afinal, de quem é a culpa pelo acidente que vitimou a Luciana? Há controvérsias, senão vejamos:

– Da forma mais simplista, a malvada madrasta que literalmente a colocou dentro do ônibus e portanto, fadada a sofrer um desastre? Mas aí há algumas perguntas:

  • A Helena sabia que o ônibus ia explodir?
  • A Helena sabotou o ônibus botando umas vacas em sua frente para o motorista despencar ribanceira abaixo?
  • Ela tem o poder de fazer o ônibus desbarrancar com o poder do pensamento?
  • Foi praga que ela rogou quando disse: “eu quero que você viva, mas viva muito para aprender…”?
  • Ela foi omissa porque prometeu à mãe da garota que ia tomar conta direitinho dela, baby-sitting o tempo todo?
  • Ela devia ter sido mais paciente?

Ah, mas tem que ter um saco de filó pra aturar aquela guria petulante, não é? Convenhamos que ela teve paciência de Jó, eu a teria deixado tetraplégica bem antes e com minhas próprias mãos, torcendo seu lindo pescocinho de garota mimada.

– A culpa seria da própria Luciana?

  • Sabem, aquela história de karma e coisa e tal. Sendo como é, talvez o Todo-Poderoso criador achasse por bem dar-lhe uma lição, fazê-la aprender à força o que não aprendeu na hora certa. Respeito, paciência, humildade, essas coisas todas que se ela tem, não usou em um minuto sequer desde que a novela começou.

  • Ela cavou seu próprio buraco, depois de a Helena ter dado a chance da vida dela, em vez de ficar agradecida ficou se achando e deu no que deu.

– A culpa foi dos pais da Luciana?

  • Se tivessem se esmerado um pouco mais na educação da guria ela não teria caído na arapuca da própria língua. Foi falar o que não devia, levou uma bofetada e uma passagem de ônibus na fuça. Uma roubada, diga-se de passagem. Sabe aquele negócio do efeito dominó? Achavam tudo o que ela fazia uma gracinha quando era pequena, esqueceram que quando ficasse adulta ia perder um pouco a graça e os outros poderiam não ver graça nenhuma. Como aconteceu com a madrasta-megera.

– Estava escrito?

  • Segundo essa teoria, tudo ia acontecer desse jeito mesmo, se ela fosse no carro da Helena o ônibus ia derrapar e bater bem do lado onde ela estava e tudo ia acontecer do mesmo jeito. Se ficasse no Brasil, ia cair de uma escada ou coisa que o valha.

E só mais uma coisinha. Não importa de quem foi a culpa. É natural do ser humano ficar procurando culpados em vez de encarar a verdade e partir para o trabalho. O mais importante é dar força para a guria se recuperar, nem ficar distribuindo bofetadas, juras de morte e afins por aí. Brabeza não vai fazer a garota andar nem vai melhorar nadinha o estado dela. Nada produtiva essa linha de pensamento, não leva a absolutamente nada.

E quer saber mesmo a minha opinião? Do jeito que ela acordou, acho que além de ter ficado tetraplégica bem que o autor da novela podia quebrar o nosso galho e deixá-la muda também. Haja paciência pra aguentar a revolta dela. “Por quê isso foi acontecer justo comigo?” Ora, meu bem, porque você estava no lugar errado, na hora errada, porque disse a coisa errada para a pessoa errada. Para acertar agora, só parando de falar besteira, senão daqui a pouco o Brasil todo vai estar torcendo pra que aquela sua irmã malvada pregue uma fita crepe nesse seu bocão.

Leia também: Novela é que nem sogra: quem viu uma já viu todas


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