Novela é que nem sogra – quem viu uma já viu todas

Muda a TV e o público, as novelas continuam as mesmas, só muda o nome.

Muda a TV e o público, as novelas continuam as mesmas, só muda o nome.

Pois é, e olha que eu sei do que eu estou falando, porque pelo menos de sogra eu entendo. Novela faço questão de não entender, e tem alguma coisa pra entender afinal?

Quando eu era pequenininha lá no século passado, ano de 63 ou 62 (quem é que vai lembrar) vi minha primeira novela. Aliás já estou mentindo, não vi nada porque era no rádio, nem havia televisão no interior de São Paulo, que era onde eu morava. Todo dia eu ouvia e minha vó atrapalhava, com sua já crescente surdez ficava o tempo todo perguntando:

– O que é que ela tá falando?

E eu ia explicar, já perdia a próxima fala. Não perdia muita coisa, é verdade, mas na época era novidade. Tinha o Albertinho Limonta que foi criado como filho da Mamãe Dolores mas só ele não percebia que ela não era a mãe dele. E não era mesmo, primeiro caso de milhares de outros de filho trocado nas novelas.

Quase meio século depois ainda não aprenderam a fazer novela contando outra história. Tem umas que até começam bem, pela chamada você já se anima, assunto sério da atualidade, clonagem, segregação racial… A coisa vai até indo bem lá pelo 10º capítulo, mas quando vai ver já começam a surgir as primeiras suspeitas de que há algo de podre no reino da Dinamarca. Quer dizer, da emissora lá que está apresentando a tal novela.

Acho até que cobram do coitado que escreve aquela porcaria. “E aí, já apareceram os bebês trocados?”. Alguns a gente só descobre no final da novela – que é o que eles chamam de “suspense”. Quando era pequena lá no século passado eu achava que “suspense” era sinônimo de filho trocado.

Quantas pessoas você conhece que já trocaram o filho com alguém? “Ah, o meu tem esse defeitinho aqui na orelha, além do mais eu queria menina, você tem uma menina mas queria menino, vamos trocar?” Pois é, rolou esse papo lá na maternidade quando tive minha filha, mas mesmo sendo ainda muito jovem, ainda bem que eu nunca fui muito fâ das telelágrimas, não troquei no final das contas. Mesmo no auge da estupidez que é inerente aos muito jovens acho que alguma coisa lá dentro da minha cabeça cheia de caraminholas e sonhos meio infantis e idiotas alguma coisa dizia: “Isso não vai dar certo”.

Mas em novela eles trocam. E nem precisa ter defeitinho na orelha, vão trocando assim como se fosse a coisa mais natural. Trocar filho é solução pra quase tudo em novela. O neto morreu, vou botar meu filho no lugar dele pra minha filha não ficar chateada. Mas claro que vou começar a escrever um diário hoje mesmo, contando tudo tintim-por-tintim que é pra jogar na cara daquela ingrata se ela nem assim tomar jeito.

E o mais incrível é que por mais secreto que seja o top-secret segredo, eles sempre acham um jeito de deixar tudo por escrito em algum lugar e depois esquecer aberto assim como quem não quer nada em cima de algum móvel onde a empregada semi-analfabeta e pra lá de mexeriqueira vai facilmente xeretar. E em novela TODAS as empregadas são enxeridas e fofoqueiras, o que é uma maldade, nem toda empregada é fofoqueira. Eu pelo menos tive uma… deixa ver, tive tantas, mas tinha uma que não era. Deixa ver… Bom, deixa pra lá.

Depois ainda dizem que a arte imita a vida. Mas a vida de quem, caramba? Em novela ninguém trabalha e ficam comendo e bebendo o tempo todo. Já reparou que não importa se é da ala rica ou da ala pobre, toda família toma um café da manhã digno de hotel cinco estrelas? Uma vez vi numa revista especializada (tão ruim quanto as novelas que promove) que comida em novela dá IBOPE. Acredito mesmo. Aqui no Brasil tem gente que só vê comida boa e farta em novela. Pelo menos nesse ponto novela é mais útil que nossos governantes, não promete nada, não pede voto mas todo dia bota comida no lar do brasileiro, nem que seja só pra olhar. Olha com o olho e lambe com a testa, idiota. Quem mandou votar no homem?

Mais previsível que novela só mesmo reação de marido machista. “Mulher minha não sai com uma roupa dessas nem passando por cima do meu cadáver”. Isso lá na frente dos amigos dele. Lá de dentro vem a voz da mulher do dito-cujo. “Alfredo, cadê o Neve?”. E o machão bota o rabo no meio das pernas, adoça a voz: “Já tô indo, amorzinho”. Os amigos machões do moço entendem a situação, lá na casa deles é a mesma coisa. Marido sempre dá a última palavra, ou as últimas palavras: “Tudo bem, amor”.

E em novela todo homem casado e rico tem amante. E amante bonita e vagaba. Só o idiota é que não vê que tem armação por trás. Aliás em novela toda amante bonita e vagaba de homem rico e casado também tem amante. Sarado e cafageste, que acaba papando até a esposa do homem casado e rico. E namorando a filha dele, pra ódio mortal do homem casado e rico e da mulher do homem casado e rico.

E já viram como tem coincidência em novela? Acho que o Murphy quando foi escrever aquela lei dele lá se inspirou numa novela da rede Bobo, ou de outra emissora qualquer, dá no mesmo. Já viram como mesmo numa cidade grande como São Paulo ou Rio só fica naquela panelinha? Todo mundo conhece todo mundo, namorado de uma é primo da outra, que é amiga da ricaça da outra ala da novela, que conhece o primo da outra sem saber que ele de fato é seu irmão que foi entregue pela mãe pra tia da amiga da amiga que por sinal curte uma paixãozinha pelo primo e é amante do pai da amiga ricaça mas não sabe que ele é pai dela. E depois ainda querem que a gente ENTENDA!

Eu desafio o FDP que conseguir escrever uma novela sem usar:

– FILHOS TROCADOS

– PAIS TROCADOS

– MIL COINCIDÊNCIAS

– GENTE IDIOTA QUE DEIXA OS SEGREDOS TODOS ANOTADINHOS (deve ser pra não esquecer, aí vai ser segredo mesmo)

– GENTE MAIS IDIOTA AINDA QUE ESCREVE OS SEGREDOS TODOS E DEPOIS ESQUECE EM CIMA DE UM MÓVEL (só pode ser pra ver o circo pegar fogo)

– NOVELA COM DUAS ALAS – a rica que tem mordomo e frequenta o “soçáite” e a pobre, que toma cerveja, curte uma gafieira e vive dando baixaria.

O dia em que aparecer uma novela assim, eu juro que assisto, só não sei se vai dar IBOPE. Ah, e no café da manhã, só um cafezinho preto,  puro e um pão com manteiga, por favor! Vamos adequar de vez essa m* à realidade do povo brasileiro!

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3 Respostas to “Novela é que nem sogra – quem viu uma já viu todas”

  1. Concordo em genero numero e grau

  2. Emilia Campos Fogo Says:

    Adorei o texto ,me diverti muito ,como é bom achar pessoas inteligentes
    concordo com tudo .Abraços

  3. […] Leia também: Novela é que nem sogra: quem viu uma já viu todas […]

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