Com um pézinho na senzala

Afrodescendente que sou, só de escrever essa palavra já dá engulhos. Será que “negro” é tão pejorativo, é um defeito tão grave, que temos que usar um sinônimo? E depois ainda inventaram um feriado, “Dia da Consciência Negra”, é pra quê, hein? Pra gente se conscientizar de que é negro? Ou pra tomar consciência de que negro também é gente? Ou de que não somos inferiores? Pra quê é esse feriado afinal?

Já estou cansada desse preconceito enrustido, de governos que criam “quotas para negros”, como se negro fosse sinônimo de incapaz. Quando entrei na faculdade não tinha essa coisa de reserva para negros, entrei porque estudei e consegui a nota para passar na frente de negros e brancos que estudaram menos. Não ficaram para trás por terem essa ou aquela cor, não era uma questão de cor, passava quem sabia mais.

Quando passei em concurso público foi porque me destaquei frente aos demais brancos, índios, mestiços, cafuzos, mulatos e até marciano, mas fiquei classificada acima dos que sabiam menos e não porque alguém achou que eu não teria capacidade e me deu uma mãozinha criando uma porcaria de “reserva para negros”.

Esse negócio de reserva para negros me soa assim mais ou menos como vaga para deficientes, ou seja, cai muito mal. Dizem que é porque o governo quer compensar o fato de que negro tem menos oportunidades nesse país. Mas oportunidade é a gente quem cria, temos é que aproveitá-las quando aparecem.

Sempre que consigo alguma coisa tem sempre alguém pra dizer: mas que sorte, hein? Sorte é o caramba, sorte não existe. O que existe é a oportunidade. Quando ela surge você tem que estar preparado para aproveitá-la porque ela pode não aparecer novamente. Então o que chamam de “sorte” nada mais é do que somar oportunidade + preparação. E “preparação” leva anos e custa muito esforço. Sorte não tem nada a ver com isso.

Portanto esse negócio todo de reservas para negros, dia da consciência negra e coisas no gênero é tudo conversa fiada, com essas baboseiras estão apenas discriminando o negro mais que nunca. É quase como se dissessem: você é um incapaz, portanto vamos dar-lhe uma mãozinha. Hipocrisia pura!

(Zailda Coirano)

2 Respostas to “Com um pézinho na senzala”

  1. mariomarroquim Says:

    Nossa! Concordo com tudo! Sempre odiei esse preconceito infeliz mascarado de moralismo. Para mim, se eu vejo um negro ou um branco, não tem nada demais em falar que ele é negro ou ele é branco. Isso é só uma cor!!! Mas as pessoas botam tanta coisa em cima de um fato simples que as vezes têm medo de falar no assunto… Quem se ofende por ser chamado de negro é o verdadeiro racista por quê acha que sendo negro seria inferior em algum aspecto. Odeeio quando algum amigo meu fala de uma festa chique e diz “coisa de branco…”. O fato é que o preconceito existe e é muito forte.
    Concordo também sobre a questão de “sorte”. As pessoas não valorizam as outras e não se valorizam. Eu sempre estudei muito, costumo comprar e ler livros, mas não deixo de sair e beber e bater carro e tudo mais. Ai chega o cidadão e diz que sou muito “sortudo”… Sorte existe, mas tudo que consegui foi por causa do meu esforço. Tudo que eu faço sempre faço com qualidade. Muita gente não valoriza o esforço dos outros. Esse tipo de pessoa só quer saber de sair as 18h e beber uma “cervejinha” e assistir o jogo, nesse caso aí, só com muuuita sorte mesmo é que vai pra frente..

  2. Esse negócio de preconceito é fogo, a festa que é “coisa de branco” me lembrou de um chefe meu, quando ainda trabalhava no Banespa, que me entregou umas fichas para preencher e disse:
    – Faça um serviço de branco, hein?
    Eu joguei as fichas de volta na mesa dele e disse:
    – Impossível. Dê para um branco fazer então.
    Se fosse hoje em dia cabia um processo, mas no início da década de 80 esses comentários eram frequentes e nada se podia fazer. Eu nunca me senti humilhada por eles, mas ficava irritada porque “serviço de branco” significava “serviço bem feito”. Para mostrar que eu fazia o serviço bem feito mesmo não sendo serviço de branco, tive que me esforçar o dobro dos outros. Mas nunca me queixei nem me acomodei botando a culpa em alguém ou na sociedade.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: