O passado em fotos

Andei fuçando em fotos antigas e através delas reconstituindo uma parte de minha história e também lembrando o passado, por que não? O passado não volta mas nem por isso deixa de existir. E é muito engraçado olhar o passado porque vemos as gritantes diferenças, notamos o quanto crescemos (ou não), vemos as mudanças todas, para melhor ou para o pior.

Olhando essa foto que publico hoje lembro tudo o que se passava em minha cabeça naquela época, das esperanças, da confiança no futuro e da certeza de conseguir tudo o que queria. Bem, essa certeza já não tenho mais, ao longo dos anos descobri que temos que batalhar para conseguir o que queremos, e se algo vem de mão beijada, via de regra é presente de grego, ou seja: fria.

Esse garoto comigo na foto é o primo-irmão Kico, que participava das brincadeiras e molecagens, com uma ligeira tendência á maldade e com uma mente tão ou mais perversa que a minha. Aprontamos muito, conosco ninguém podia, nossa mente era um fervilhar de idéias para fazer tudo o que não podia. Cavávamos “pocinhos” no quintal todo, uma vez minha vó enfiou o pé em um deles e caiu, na hora em que foi recolher a roupa do varal e os cavadores aqui foram convocados a fechar todos os poços já criados, bem como os próximos que viriam. A ordem era lavar e guardar também as colheres e facas que usávamos na confecção de tão precoce obra arquitetônica, demonstrando já na tenra idade uma vocação que melhor ficaria em nossos governantes. Eram poços, pontes e rodovias todo dia, e para nos livrarmos da obrigação de lavar nossos instrumentos criadores depois de finda a brincadeira, achamos uma solução viável e criativa: enterrávamos as colheres ao fechar os poços.

Minha vó nunca descobriu porque sumiam todas as colheres e facas da casa, vez por outra culpava as empregadas, para ela seres nada dignos de confiança. E o mistério permaneceu por décadas, desvendo-o aqui e agora. Desculpe-me pela indiscrição, priminho. Mais cedo ou mais tarde “eles” ficariam sabendo, de qualquer forma.

Confessando o “crime” pueril já me sinto mais aliviada, um segredo de tal monta guardado durante tantas gerações pesa muito, e eu já não lhe suportava o peso na consciência. É claro que não pretendo convencer a ninguém de que esse tenha sido meu maior crime na vida, mas que preguiça de guardar o que usou pode ser considerada um desvio de caráter, lá isso pode, principalmente em nossos filhos e maridos. Em crianças como éramos na época, considero plenamente desculpável, eu e meu companheiro fiel de traquinagens bem sabemos que aprontamos “artes” poucas e boas, algumas de consequências nada agradáveis para nossas nádegas, que foram para a cama doloridas das palmadas e chineladas que nossa defunta e saudosa avó não poupava em circunstâncias nas quais ela achasse que eram necessárias.

Corretivos nos foram brindados em profusão durante a infância, sempre que aprontávamos algumas – que era descoberta – e na época nos lamentávamos de nossa pouca sorte e prometíamos a nós mesmos que faríamos um planejamento melhor da próxima vez. Hoje olho para a infância e percebo que esses corretivos doeram infinitamente menos que os que a própria vida nos aplicou depois, ao longo da vida, esses algumas vezes injustos em nossa opinião, dos quais não nos julgamos merecedores por não termos feito absolutamente nada.

Sofremos muitos percalços por essa vida afora, tivemos nossos castigos e dentro de nós nossa alma juvenil ainda reclama, dolorida:

– Mas por quê? Não enterramos colher nenhuma…

(Zailda Coirano)

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4 Respostas to “O passado em fotos”

  1. rogerio assis Says:

    zailda, adorei a foto e a historia apensa…Peço-te, coloca mais fotos!! Esta e uma forma de reviver o passado..porque se o passado só existe na nossa mente, com uma foto, esse passado ganha um rosto, e quase q ressuscita…
    Que idade tinhas nessa foto?
    Se puderes coloca as fotos das diversas idades em sequência cronológica…eu gostaria muito!!
    Rogério

    Zailda responde:
    É verdade, hoje postando essa foto tive a exata impressão de que aquela menina me espreitava por cima do ombro.

    Obrigada pelo comentário e volte sempre!

  2. Gostei! Gostei! Agora só de pirraça sua avó vai voltar como fantasma e te assombrar : “agora sei quem sumia com os talheres”! BUUUU!!! :-D
    Uma boa semana em sua vida e com muita alegria! :-)
    UM ABRAÇÃO E UM BEIJÃO PARA VOCÊ!! :-D

    De seu amigo,
    Enos

    Zailda responde:
    Tomara que não, eu juro que não queria fazer isso, fui forçada pelas circunstâncias… hehehe

  3. Uauuu…!!!Passado é passado,já passou,ficou para trás,se foi…mas de vez enquando nossas lembranças nos vem à tôna.
    Voltamos ao tempo,buscamos fotos,catamos momentos…e que saudades!
    Amei saber que você viveu esse momento de um tempo que não volta,não retorna na vida,mas na memória…jamais morrerá.
    Tô passeando pelo seu cantinho.
    Bjsss…milll

  4. Sonia, você tem razão, o passado não volta mais. Eu gosto de viver o presente mas tenho sempre um pé no futuro, o que eu mais tenho são planos e sonhos, como se fosse viver mil anos.
    Mas é bom de vez em quando tirar as fotos antigas do baú e analisar o caminho longo que percorremos.
    Passeie à vontade, será sempre minha convidada.
    Apareça sempre!

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