Ensaio sobre a chuva

Chuva é o que chamamos aquele fenômeno natural que tem vontade própria e espírito de porco, que só aparece se houver uma possibilidade ainda que remota de botar água nos seus planos – se é que me perdoa o trocadilho infame.

Planeje seu final de semana prolongado na praia, seu churrasco ao ar livre no mais autêntico estilo pobre-que-se-deu-bem, ou uma simples faxina na sua garagem e pode apostar que as chances são de dez contra um que vai cair um toró desgraçado e só vai parar quando você mudar seus planos.

Quando sair de casa, nem que seja pra ir até a padaria da esquina comprar um maço de cigarros, não se esqueça de levar uma sombrinha ou guarda-chuva (por via das dúvidas leve logo os dois). Se sair despreparado, pode estar lá fora um céu de brigadeiro com sol de rachar mamona que assim que você botar o pé na padaria cai o maior aguaceiro.

Se usar roupa que encolhe ou solta tinta, então… pode estar certo que vai dar chuva de vento, daquelas que caem de cima pra baixo até uma determinada altura (a do seu guarda-chuva) e daí até o chão caem na horizontal, que é pra causar o maior estrago possível. E se xingar o vento vira seu guarda-chuva, te deixando literalmente na mão.

O homem moderno inventou coisa muito melhor pra chamar chuva que a dança da chuva dos índios e chama-se guarda-chuva, a variante é a sombrinha. Basta esquecê-los em casa ou em qualquer outro lugar de difícil acesso contando do ponto em que você está, não dá outra: chuva na certa.

Mulher então é um desbunde, basta sair com aquelas blusinhas de verão, de alcinha, toda vaporosa, que o dia escurece, dá cada trovão que Deus me livre e o céu vem abaixo: um banho daqueles, pra deixar você morrendo de frio, xingando, toda ensopada – e ainda pegar um resfriado que irá durar até a próxima chuva.

Viagem então, é um prato cheio pra chuva. Você com sua mala nova, de rodinhas, puxando toda faceira, cheia de roupa nova e passadinha dentro – aí começa o toró. E toca correr, porque não inventaram sombrinha que tapa a mala e o dono ao mesmo tempo. Você escolhe quem vai chegar ensopado ao destino: você ou toda a sua roupa novinha pra um mês de viagem.

Eu já nem ligo, ao primeiro relâmpago solto um palavrão e me conformo com minha sorte de saltadora de poças e desviadora de goteiras. Já tenho várias sombrinhas e guarda-chuvas estrategicamente espalhados por todos os lugares que freqüento ou aonde possa me dar na cabeça de ir um dia, assim nunca sou pega de surpresa, se bem que na maioria das vezes a sombrinha não adianta nada, chuva é o bicho mais competente da face da terra, vem pra molhar e molha mesmo, não importa o que se faça.

Pelo sim, pelo não, trago sempre uma sombrinha na bolsa, para o caso de alguma outra falhar. E já maldigo os cretinos dos motoristas que passam que nem foguete em cima das poças da rua, que é pra molhar de vez os incautos que tentam desesperadamente controlar a sombrinha de acordo com a direção dos pingos da chuva. Devem ser todos broxas ou sofrer de complexo de inferioridade para se divertirem assim, jogando água suja das poças na cara dos outros.

Mas o que não tem jeito, remediado está. Nem adianta reclamar, São Pedro não dá bola pra torcida ou é surdo como uma porta, por mais que reclamemos do clima ele não está nem aí, manda calor sufocante de matar no verão, frio do pólo norte no inverno, vento de virar sombrinha, e chuva toda vez que fazemos planos ao ar-livre. Êta santo do contra, meu!

(zailda coirano)

Uma resposta to “Ensaio sobre a chuva”

  1. Amiga,
    mais uma vez passeando em seu Blog porque adoro ler tudo que escreve.
    É de uma sinceridade e de uma verdade fora de série tudo que você deixa aqui!
    Odeio pessoas que falam “SIM” só para agradar ao mundo.
    Parabéns!
    Bjsss…milll…

    Zailda responde:
    Obrigada pela visita, aqui escrevo tudo o que me dá na cabeça, me propus a abrir minha mente ao escrever esse blog, sempre irei falar exatamente o que penso aqui. Claro que nos outros eu também digo o que penso, mas nesse falo sobre qualquer coisa, os outros são mais específicos.
    Obrigada pelo comentário gentil, também adoro ler o seu blog, de extremo bom-gosto.
    Beijão

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