Tem um real aí?

Sou uma mulher inteligente e acho que tenho cara de metida e de inteligente. Nem que eu não tenha tanta cara de inteligente assim, pelo menos estou certa de que cara de burra é que eu não tenho. Mas nem todo mundo pensa assim.

Estou bem sossegada esperando meu ônibus e lá vem um cara com uma conversa mole do caramba, explicando que veio lá de onde o Judas perdeu a meia e que tem que ir lá pra casa do chapéu e não tem o dinheiro da condução. Conta mais umas tantas desgraças, desde a bicheira debaixo do rabo da sogra até a pressão alta do cachorro (ou seria o contrário? Não sei, nem dei atenção…) e me pede encarecidamente se eu não teria a misericórdia de emprestar-lhe nem que seja uma moeda para inteirar o dinheiro da condução.

Dou um sorriso amarelo de quem vai mandá-lo para o diabo que o carregue e nem precisa pagar porque pra lá a condução é de graça, e que essa lenga-lenga eu já ouvi mil vezes, pelo menos umas 10 dele mesmo. Tá me achando com cara de otária, ô meu?

E não é que me acha com cara de otária mesmo? Lá vem ele com a conversa fiada de novo, tentando me enrolar e ganhar a simpatia dos demais presentes tão apressados quanto eu pra tomar logo o ônibus e parar de ouvir essa baita conversinha de cerca lourenço. E vem ele com o remédio para a bronquite do gato e a sarna da filha (acho que me enrolei de novo, mas também é tanta desgraça que só pobre sem-vergonha mesmo pra inventar…). Vem meu ônibus, entramos todos e ele fica lá despejando seu lero-lero nos próximos incautos idiotas que aparecerem. De mim não terá uma moeda sequer.

E está minha filha na fila do ônibus, mesma coisa, igualzinho à mamãe, e aparece uma “indivídua”, pra não especificar melhor, porque era dessas entortadas pela vida ou por vontade própria, a bolsinha hoje rodou, rodou e voltou vazia… Então ela se dirige à minha filha que está fumando calmamente à espera da condução depois de um dia de trabalho puxado 9 às 19 e mais 3 horas e meia no banco do curso noturno e ainda um chá-de-cadeira na fila do ônibus, ou seja, paciência nenhuma, tolerância zero. E vai que a “distinta” lhe pede com a refinada educação de quem foi criada solta aí pelo mundo:

– Ô minha tia, me arruma um cigarro pra mim aí?

Não sei o que irritou mais minha filha, se foi o “minha tia”, se foi a redundância do “me” e do “pra mim”, ou se foi simplesmente porque os tipos mais descarados presumem que já que trabalhamos temos algo como uma “obrigação moral” de sustentar seus luxos e vícios. Fato é que ela respondeu um “não” bem seco. A “criatura” se invocou com a negativa e virou as costas mandando que minha filha então enfiasse o cigarro no c. Filha minha é filha minha, o orgulho da mamãe que tem lá seu pézinho na senzala, neta de lavadeira que desce das tamancas e roda a baiana fácil, fácil.

– Enfio o cigarro aceso no c mas não te dou!

Agora vejam só os senhores: trabalhamos o dia todo, estamos lá bem belas e folgadas esperando o ônibus que vamos pagar com o dinheiro que ganhamos honestamente, fumando um cigarrinho que compramos com nosso minguado e suado salário e agora esse bando de vagabundos acha que temos a obrigação de dividir com eles? Ajudar a carregar as sacolas do supermercado ninguém quer… e olha que às vezes venho de lá bufando com o peso. E vejam que já sou uma senhora… Mas agora contar lorota pra boi dormir no nosso ouvido e ainda ficar bravo quando dizemos um prazeroso, profundo e sonoro “não”, isso eles querem, né? Aqui pra eles, ó!

(zailda coirano)

3 Respostas to “Tem um real aí?”

  1. Bravooo!!!
    Eu teria tido a mesma reação e penso exatamente isso:”Aqui pra eles,ó!(Risos)
    Ameiii…teu Blog e passei horas aqui,viu?
    Agradeço o comentário e a extenção do conviite.
    Você será também uma visita sempre bem desejada no meu Blog.
    Falando nisso…você tem uma moedinha ou um cigarrinho aí para me dar ? Porque hoje descobri que a minha conta do banco foi clonada e não sobrou nadica por lá?Nem para um cigarrinho a varejo!(Risos)
    Bjsss…milll…

    Zailda responde:
    Pois é, menina, nem nos dão tréguas, não dá nem pra pitar sossegada, lá vem um sem-teto dizendo que é morador de rua e pede logo um cigarro… só por Deus!
    Você também será sempre bem-vinda aqui!

  2. Amiga,vim rapidinho aqui para te comunicar que tomei a liberdade de colocar o endereço do teu Blog no meu,ok?
    Ahhh…sua visita é sempre um prazer,viu?
    Tenha uma lindo dia!
    bjsss…milll…

    Zailda responde:
    Nossa, muito obrigada, gentileza sua!
    É um prazer ter meu endereço num blog tão bonito e com tanto bom-gosto!
    Bjus

  3. Passei aqui para te deixar uma beijoca,viu?

    Zailda responde:
    Venha sempre, é muito bem-vinda!
    Bjus

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